Ensaios · Tradução do original em inglês

Quer Viver Para Sempre? Você Conseguiu! (Um Experimento Mental)

Um homem pede para viver para sempre. Um neurocientista atende, trocando neurônio por neurônio, copiando cérebro em cérebro, até a pergunta se tornar inevitável: você é o seu cérebro, ou algo que não pode ser copiado?

Daniel Branco · Ensaio · 9 min de leitura

Um homem me procurou em busca de uma solução para viver para sempre. A rigor, isso deveria ser totalmente factível. Já que a humanidade do século 21 acredita que a natureza humana não passa do resultado da atividade cerebral, tudo o que é preciso para viver para sempre é manter um cérebro vivo para sempre — um desafio tecnológico e tanto, sem dúvida, mas nada que as leis da física proíbam. Como um homem prototípico da era da Tecnologia da Informação, o entendimento dele era de que nós, humanos, não somos diferentes de computadores: nós temos um cérebro, que equivale ao hardware de um computador, e somos o software que diz ao hardware o que fazer. O processamento de informação que acontece no cérebro supostamente (e magicamente?) gera a consciência.

Como neurocientista, eu estava relativamente acostumado a manter fatias de cérebro artificialmente vivas. Além disso, tendo trabalhado com mapeamento cerebral de pacientes candidatos a cirurgia de epilepsia e de tumores cerebrais, eu tinha um entendimento geral das diferentes áreas do cérebro e das suas funções. Melhor ainda, eu conhecia uma "nova tecnologia" que me permitiria manter o cérebro desse homem vivo, artificialmente e indefinidamente. Eu monitoraria a atividade de todos os seus neurônios e, conforme começassem a falhar, simplesmente substituiria os neurônios originais por neurônios sintéticos.

E aqui começa o nosso experimento mental.

Por décadas, acompanhei aquele homem, mapeando continuamente a sua atividade cerebral e a saúde de cada neurônio. Toda vez que um neurônio adoecia, eu apenas o substituía por um novo, artificial, com vida útil estimada de pelo menos mil anos. Enquanto isso, outros médicos garantiam que os demais órgãos também funcionassem adequadamente. No seu 200º aniversário, o cérebro artificial do meu cliente estava funcionando maravilhosamente e o homem estava bem feliz. (Para poder cuidar dele por tanto tempo, encontrei outro cientista que aplicou a mesma técnica no meu próprio cérebro.)

Algumas décadas depois, o homem começou a se sentir um pouco entediado. Pediu que eu o pusesse para dormir por algumas décadas, para dar tempo de o mundo desenvolver coisas mais interessantes. "Sem problema", eu disse. Quando voltou, achou que precisava de um corpo novo — talvez um que pudesse voar ou respirar debaixo d'água. Propus simplesmente transferir o cérebro dele para um corpo novo em folha. Já que tudo o que ele era era o seu cérebro, uma máquina física e replicável, raciocinamos que ele também não precisaria manter o cérebro velho e ultrapassado. Faria mais sentido transferir o cérebro antigo para um novo, baseado em tecnologias mais recentes — com alguns aprimoramentos, como um tradutor universal.

Para transferir o cérebro de alguém para um cérebro novo, não basta replicar o hardware. Precisamos que o software instalado — e particularmente o estado do sistema — permaneça o mesmo. Para capturar o estado exato, precisaríamos "hibernar" o homem, o que em biologia se faz por congelamento. E assim fizemos. O processo consiste basicamente em escanear o cérebro antigo em 3D e imprimir em 3D uma cópia exata dele, com detalhe em nanoescala. Depois de algumas horas, tínhamos o nosso cliente de volta, no seu novo supercorpo descongelado e com o seu novo cérebro. Naquela noite, num jantar, a nossa equipe observou cada interação. Ao fim da noite, não havia dúvida: a transferência foi um sucesso completo. Ele continuava sendo inteiramente ele, e ninguém notou nada.

No dia seguinte, ele veio falar comigo sobre o resto do plano. Por contrato, eu era legalmente obrigado a descongelar o corpo original, já que o cliente original queria ter certeza de que era realmente ele no corpo novo. O homem no corpo novo não estava nem aí, e saiu voando. E então acordei o original.

"Bem-vindo de volta! A transferência do seu cérebro foi um enorme sucesso!"

"Ah, bom dia, doutor. Tive os sonhos mais incríveis enquanto estive fora. Quanto tempo passou?"

"Cerca de 48 horas. Verificamos que você, no seu novo corpo e cérebro, é exatamente o mesmo bom e velho você. Está pronto para pelo menos mais 2.000 anos!"

"Interessante. Posso vê-lo?"

"Bem, isso seria totalmente contra o protocolo. Confie em mim: você está indo muito bem lá fora."

"Sinto muito, mas não posso confiar nisso. Se ele está lá e eu estou aqui, isso significa que eu não estou lá e que eu não sou ele."

"Ora, ele certamente é você. O cérebro dele é uma cópia perfeita do seu, compartilhando exatamente o mesmo estado. Seja qual for a consciência que aquele cérebro está gerando, é você!"

"Bem, se você está falando comigo agora, e não com ele, definitivamente não estamos compartilhando a mesma consciência. Somos apenas duas consciências iguais, mas independentes. Quero o meu próprio cérebro transferido para o corpo voador."

"Mas foi isso que fizemos! É o seu cérebro que está lá."

"Não é! Aquele é uma cópia!"

"Bem, se você pensar direito, vai perceber que o seu cérebro atual também já não é original. Eu já substituí quase todos os neurônios originais dele. O seu cérebro atual é essencialmente uma cópia do seu cérebro antigo, assim como o cérebro no corpo novo é uma cópia deste aqui."

"Você está dizendo que me matou todas as vezes antes de me trazer de volta?"

"Não exatamente. Se eu tivesse matado você, você não estaria aqui, certo? O que você é é a sua atividade cerebral, o seu estado cerebral. Enquanto o seu cérebro estiver funcionando, você está vivo e você é você."

No fim, para manter a paz (a esposa dele deixou claro que o amava, mas que não dava conta de dois dele), movemos o cérebro dele para o corpo novo. Cerca de 48 horas depois: "Bem-vindo ao seu novo corpo! Agora você tem poderes de voar e de mergulhar!" — "Ei, doutor, bom te ver de novo! Tive os sonhos mais incríveis enquanto estive fora!" — "Que bom! Um dia quero ouvir tudo sobre eles…"

1. Ou você morre e nasce a cada momento, ou você não pode morrer

Nos sentimos bastante confortáveis com a ideia de ir dormir, mas ficamos aterrorizados com a ideia de morrer. Mas qual é exatamente a diferença? Se você acredita que é o seu estado cerebral, e aceita ir para a cama com um estado e acordar na manhã seguinte com outro, então deveria aceitar que a outra pessoa do experimento é realmente você — e deveria aceitar ser desligado. Porque é efetivamente isso que está acontecendo o tempo todo. Estamos continuamente desligando um estado (uma cópia) e criando um novo estado (uma nova cópia) dos nossos cérebros a cada momento. Conforme o nosso estado cerebral evolui, morremos e nascemos de novo, continuamente. Se essa mudança acontece no "mesmo cérebro" ou em um "cérebro copiado" é fisicamente irrelevante.

Mas a consciência, diferentemente do ego, poderia ser não local. Há uma séria falta de evidências de que a consciência seja local. A única razão para assumir que ela é local é que também assumimos que realidades não físicas não existem — para o que também há uma grande falta de evidências. Se a consciência é não local (talvez até não física), pode ser que ela não possa morrer só porque um processo físico foi encerrado. Para a consciência morrer, ela teria de ser gerada localmente no cérebro. E, se é gerada localmente, isso exigiria uma nova Física — que, por sua vez, poderia acabar revelando um tipo não local de consciência.

2. Se você pode existir em mais de uma instância, onde está localizada a sua consciência?

Pense no sono como um procedimento de atualização do cérebro. Toda vez que você vai para a cama e acorda, você se sente confortável em continuar sendo você. Mas o você de amanhã já não é você (se você é apenas um estado cerebral, o estado de amanhã será outra pessoa). Você não se importa, porque o seu velho você já não é capaz de se importar, e o novo você está feliz por existir. Quando você vê, de um corpo velho, que continua a existir em um corpo novo, deveria ficar feliz em permitir que o médico desligue o antigo. Em certo sentido, você morre toda noite. Então, se a consciência é local, você já morreu múltiplas vezes — você é mais uma máquina de estados do que um ser vivo. Se a consciência é não local, porém, ela não pode morrer só porque o cérebro morreu. E essa seria a diferença entre ego e consciência: o ego está claramente relacionado ao estado cerebral; a consciência, não.

3. Toda instância igual é, ainda assim, única

Se realmente somos apenas os nossos cérebros e a consciência emerge localmente, então deveria ser possível fazer cópias físicas da nossa consciência. Mas, se você faz uma cópia, ambas as cópias são versões conscientes de você, cada uma afirmando que a outra não é você — e cada uma se recusando, com razão, a ser desligada. Poderíamos ter duas consciências iguais em dois corpos diferentes? Se a consciência é não local, poderia ser a mesma consciência não local experimentando duas realidades a partir de dois corpos diferentes. E, se for esse o caso, não poderíamos todos nós ser manifestações de uma única consciência? Poderia essa consciência não local, que tudo permeia, ser o que chamamos de Deus? Em certo sentido, a existência de uma cópia exata de você seria a prova de que você não existe como mero estado físico. Ou você existe, ou não existe. Se você não existe, não pode viver. Se você existe, não pode morrer.

4. A escolha é sua

Dado o nível de evidência que temos hoje, assumir que a consciência é local ou não local é uma escolha individual. É sua a escolha de viver uma vida acreditando que a sua consciência é efêmera, produzida localmente no seu cérebro; ou eterna, existindo não localmente em algum outro lugar. (Se você pode fazer essa escolha, aliás, isso significa que você tem livre-arbítrio; e, como nenhuma lei física foi descoberta que dote um cérebro de livre-arbítrio, isso provavelmente significaria que o seu livre-arbítrio vem de uma contraparte não física.) É uma escolha entre a Ciência — um método altamente bem-sucedido para entender a matéria não viva, e bem menos bem-sucedido para a viva — e a evidência direta, em primeira pessoa, de que você é um ser vivo e consciente. Uma assume que a fisicalidade é tudo o que há. A outra é ilimitada. Escolha a que fizer você mais feliz (ou, se você já é feliz, a que lhe der mais graus de liberdade).

5. E quanto aos sonhos?

Há um bom volume de evidências anedóticas consistentes de pessoas que passaram por experiências de quase morte: quanto mais apagado o cérebro, mais rica e vívida a experiência. Isso me levou a conjecturar que o cérebro físico pode, na verdade, funcionar como um filtro para um campo de consciência muito mais amplo. Em vez de gerar consciência, o trabalho do cérebro humano seria restringir a consciência a uma experiência de vida humana. Só um morcego consciente teria acesso a saber como é ser um morcego que percebe ultrassom para ecolocalizar.

A quem sinta ansiedade com o conceito de morte, espero que isto traga algum conforto. Continue sonhando.

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