O que é Fundamentalmente Fundamental?
Quanto mais fundo a ciência cava, menos real a matéria se torna, até que a coisa mais irredutível pareça menos matéria e mais uma ideia. Será que a realidade última vive dentro da consciência?
Ao longo de toda a nossa história científica, recorremos a uma abordagem reducionista para entender o mundo natural. Desde que os humanos começaram a entender do que a Ciência realmente trata e formularam os princípios do método científico, encontrar o menor pedaço possível de matéria tem estado no centro do nosso empreendimento científico. Primeiro vieram os átomos, depois as partículas subatômicas, depois a Mecânica Quântica, depois a Teoria das Cordas. Quanto mais fundo mergulhamos, menos real (ou realista, ou determinístico) o nosso mundo natural parece ser. A esta altura, provavelmente não é exagero dizer que o aspecto mais fundamentalmente irredutível da matéria provavelmente não seria matéria alguma, mas algo mais parecido com uma ideia, um conceito matemático de algum tipo, do qual todo o resto deriva.
Mais recentemente, alguns artigos chamaram minha atenção ao questionar a "fundamentalidade" do próprio tecido do espaço-tempo, dentro do qual, supostamente, tudo existe. A esta altura, já nem estamos falando de matéria, mas do próprio substrato, ou estrutura, que estabelece e organiza a relação (a mecânica) entre toda a matéria existente no nosso universo. Esses artigos levantam a ideia de que o espaço-tempo não é a realidade última e de que algo mais espreita além dele.
O que acho intrigante nessas descobertas recentes é que a realidade, afinal, pode ser nada real.
Muitos filósofos e filosofias já propuseram que a nossa realidade percebida, consciente, é tudo o que há. O universo inteiro, incluindo você, eu, todos os planetas e galáxias, e toda a ciência, existiria apenas dentro da nossa consciência (ou de alguma consciência, já que as nossas consciências individuais poderiam ser apenas partes de uma consciência unitária maior, que tudo abarca). Nesse cenário, toda ciência, por mais sofisticada ou avançada, fracassaria em apreender a verdadeira natureza dessa realidade. Na verdade, é isso que observamos hoje. Apesar dos grandes avanços da Ciência, ela ainda fracassa, constrangedoramente, em lidar com o mais onipresente e menos compreendido de todos os fenômenos físicos: a nossa consciência. Esse fracasso merece atenção, pois provavelmente esconde verdades maiores. Será que a realidade última existe fora do espaço-tempo e dentro da consciência?
Uma visão de mundo em primeira pessoa
Na nossa visão de mundo atual, existe o universo, as Leis da Física que o governam, e nós, simples observadores sem nenhum impacto significativo sobre o universo. Nosso entendimento do mundo tem sido o de que nós, observadores individuais e minúsculos, não somos fundamentais para o universo de forma alguma. É sabido que a Mecânica Quântica pode ser interpretada como influenciada pelo observador. Ainda assim, toda interpretação da Mecânica Quântica continua assumindo que existe um mundo e que o observador está contido nesse mundo. A interpretação do Multiverso diz que nós, como observadores, poderíamos ter muitas (ou infinitas) versões de nós mesmos habitando incontáveis realidades paralelas. Mesmo assim, haveria um observador contido em cada um de todos esses mundos possíveis.
Mas, e se, apenas e se, o nosso entendimento do mundo fosse o de que o aspecto mais fundamental da realidade é a consciência, como muitos já propuseram? Propor esse paradigma de uma perspectiva exclusivamente acadêmica é uma coisa. Abraçar esse entendimento e trazê-lo para as nossas vidas é de uma ordem inteiramente diferente. Nunca, como espécie, operamos como se fôssemos os criadores últimos da realidade. E, no entanto, pode ser exatamente aí que estamos. Em vez de nos vermos como aspectos descartáveis, minúsculos e insignificantes da realidade, nós seríamos a realidade.
Visões de mundo antropocêntricas sempre foram historicamente problemáticas. A Ciência nos tirou das sombras ao mostrar, por exemplo, que era a Terra que orbitava o Sol, e não o contrário. O problema da Ciência, porém, é que, se de fato existe uma realidade em primeira pessoa, essa realidade estaria, por definição, fora do seu alcance. O método científico é todo sobre reprodutibilidade por experimentadores independentes. O propósito da Ciência, na verdade, é servir de meio para que consciências individuais (nós) cheguem a um acordo sobre o que a realidade realmente é. Esse é o ponto central da Ciência. A Ciência, portanto, é uma forma de aferir e entender a realidade em terceira pessoa. Isso não significa, contudo, que realidades em primeira pessoa não existam. Apenas significa que, se existem, a Ciência não seria muito instrumental para aferi-las e entendê-las. O raciocínio e a matemática ainda podem nos levar longe na exploração desses mundos em primeira pessoa sem nos devolver às sombras. Mas o método científico precisaria, de algum modo, ser adaptado.
Até lá, parece que temos uma decisão a tomar, como indivíduos e como sociedade: a consciência é a realidade fundamental última? A consciência, ou a realidade em primeira pessoa, é mais fundamental que a realidade em terceira pessoa? Estamos fadados a viver à mercê das dinâmicas e mecânicas de um mundo exterior, ou destinados a criar as nossas próprias realidades e os nossos próprios mundos como seres conscientes?
É improvável que a Ciência nos dê uma resposta. Pode ser que o tipo de realidade que "realmente" existe seja algo inteiramente nosso de decidir. Mas o próprio fato de podermos decidir qual realidade é mais real não seria uma pista de qual realidade é, de fato, mais fundamental? Isso é algo que só você pode decidir.