Ensaios · Tradução do original em inglês

Você Tem o Poder de Ficar Rico. Mas É Só Isso Que Você Vai Fazer?

Se você é o criador da sua realidade, riqueza é só uma das coisas que você poderia criar. Riqueza é uma métrica na criação, não no criador. Então o que você veio criar, de fato?

Daniel Branco · Ensaio · 6 min de leitura

Hoje recebi um vídeo de Robert Kiyosaki, autor de Pai Rico, Pai Pobre, um livro que, aliás, gostei de ler muitos anos atrás. Robert está agora rodando uma campanha de anúncios no YouTube para mostrar às pessoas como está nas mãos delas a decisão entre ser pobre ou rico.

Essa é uma tendência nova que venho achando muito interessante. Sam Ovens, da Consulting.com, é outro que vende um treinamento online de marketing bem interessante, que usa exatamente o mesmo entendimento que Robert está tentando propagar: o de que você é o criador da sua própria realidade. E criador de realidade você é mesmo. Todos nós somos. Fico feliz de ver esse entendimento se espalhando. Todos nós podemos ser ricos. De muitas formas, já somos.

O que me preocupa, porém, é como as pessoas vão usar esse poder "recém" descoberto (esse conhecimento é, na verdade, antigo, mas agora está virando mainstream, o que é ótimo). O poder pode ser usado para enriquecer, assim como para melhorar as nossas vidas de muitas outras formas. É, acima de tudo, um poder de criar uma realidade na qual gostemos de viver. Pode significar riqueza, mas também saúde, amor, um planeta sustentável, paz, exploração, reflexão ou, por que não, entendimento mais profundo. Da mesma forma, você pode escolher criar uma realidade ruim, com violência, ódio, guerras, escassez e tudo aquilo em que viemos provando ser tão bons, vez após vez. Se somos capazes de criar uma realidade ruim, certamente somos igualmente capazes de criar uma boa. É só uma questão de vontade.

Mas a minha preocupação não é com o quão ruim pode ser o mundo que construímos. Já fizemos bastante disso, e sou bem otimista quanto ao nosso futuro coletivo. Minha preocupação é com aqueles que decidiram usar esse poder simplesmente para construir riqueza. Não há nada de errado em construir riqueza, mas isso não deveria ser um objetivo em si, e vou tentar explicar por quê.

O poder de criar a realidade vem, naturalmente, não da realidade, pois é ela que está sendo criada. Filosófica e religiosamente, a fonte desse poder já teve muitos nomes. Na verdade, a maioria das pessoas escreveria "fonte" com "F" maiúsculo. Em termos mais científicos, porém, um dos nomes mais usados para designar a origem desse poder é "consciência". Em termos simples, a consciência é aquela essência nossa que experimenta todas essas coisas pelas quais passamos na vida, incluindo a experiência de ser rico e pobre, alto ou baixo, engraçado e sem graça, e assim por diante.

Seu corpo pode ser alto ou baixo, mas é a sua consciência que experimenta e atribui valor a ser alto ou baixo. A consciência não apenas sente a realidade: ela de fato a cria. É a sua consciência que decide, por exemplo, se ser alto ou baixo vai estar associado a uma experiência (bem real) de contentamento ou de frustração com a altura do seu corpo. A escolha é sua.

Você cria realidade em múltiplos níveis. Você cria realidade quando associa uma realidade física a uma realidade experiencial específica (o seu sentimento em relação ao seu corpo físico, por exemplo), mas você também é uma força motriz mudando e criando realidades físicas. Talvez mudar a própria altura fique reservado aos maiores mestres da consciência, mas nós mesmos somos ótimos criadores de realidades físicas. Não vou me aprofundar nisso aqui, mas devo notar que os efeitos placebo e nocebo, que demonstram a nossa própria capacidade de nos curar e de adoecer por conta própria, são bem documentados. Comparado a se fazer saudável ou doente, ficar rico não é lá um feito tão impressionante.

O que realmente me preocupa em usar esse conhecimento com o único propósito de enriquecer é que a riqueza é uma métrica na criação, não no criador. Deixe-me explicar. Somos criadores da nossa própria realidade, o que logicamente significa que a realidade não passa de uma criação nossa. Literalmente. Muitos cientistas renomados estão chegando à conclusão de que o espaço-tempo não é fundamental, e vários filósofos e cientistas renomados consideram seriamente que a realidade como a conhecemos não passa de uma criação da consciência. Isso também tem uma implicação profunda: a realidade é uma ilusão. Se a realidade é criada pela consciência e experimentada na consciência, ela não é assim tão diferente de imaginar ou sonhar.

Portanto, quando as pessoas estabelecem metas de simplesmente ficar ricas, estão apenas definindo um atributo tangível da sua criação que pode ser avaliado e medido por outras consciências. Em vez de ficar rico, essa meta poderia muito bem ser ter o cabelo mais comprido do mundo, por exemplo. A criação é sua; você decide o que nela é importante para você. Mas uma métrica na realidade física (seja uma carteira recheada, seja um cabelo muito comprido) é só isso: uma métrica no físico. A sua experiência real dela acontece na consciência. Você não é a métrica. Você nunca é rico. No máximo, você tem a experiência de se sentir rico, que pode ou não ter relação com a quantidade de dinheiro que você de fato tem. Gente rica pode se sentir pobre e gente pobre pode se sentir rica. Isso acontece o tempo todo. O que você realmente é é o que você experimenta.

O mundo está cheio de pessoas mensuravelmente ricas e miseráveis por dentro. Nenhuma novidade aqui. Mas há também muitíssimas pessoas que são prósperas e ricas por dentro. O que realmente faz diferença é como você decide experimentar a riqueza e tudo o mais na sua vida. O verdadeiro desafio não é ficar rico em si. O verdadeiro desafio é aprender a criar uma experiência plena e elevada para você, seja ela qual for, enquanto constrói a sua realidade física. Muito provavelmente, uma experiência plena vai exigir que você crie algum dinheiro, mas o dinheiro em si é só um número. Não dá para experimentar um número.

Não há segredos no conhecimento da consciência. Você pode usá-lo para ficar rico, feliz, miserável, ansioso, o que quer que decida criar. A escolha é sempre sua. Muita gente já disse, mas vou dizer de novo: faça o que você ama e você nunca trabalhará um dia na vida. Siga a sua paixão. Crie metas para si na consciência. Invista a sua energia criando uma experiência consciente plena. Cresça, melhore e enriqueça por dentro. E, se a sua paixão levar você a enriquecer no físico, por favor, aproveite os frutos da sua criação. Mas não há sentido em perseguir uma meta no físico por ela mesma. Isso não é muito diferente de um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Pode ser divertido por um tempo, mas é bem inútil. A única coisa que importa é você como criador. A criação em si sempre pode ser recriada e reinventada. Ao crescer em consciência, você aumenta o seu poder de criar. E, ao se tornar um criador melhor, você automaticamente começa a criar realidades que valem a pena compartilhar com os outros. A sua criação na consciência é a única coisa que você poderá levar consigo. É a única coisa que é você.

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